Blog do Celino Neto

O discurso de Meryl Streep e… Desde quando atores são bastiões da sociedade?

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Começo o texto com algumas simples perguntas: Ser boa atriz é sinônimo de conhecimento político/social? Atores e atrizes são iluminados ao meio de uma cega sociedade? Qual a verdadeira importância política de ser apoiado por um ator ou atriz? Pois bem, no último domingo Meryl Streep, de qualidade profissional indiscutível, tentou fazer aquele “discurso de protesto” contra o “momento tenebroso” que vive os Estados Unidos, resumindo sua candidata perdeu e ela não aceitou.

Mas gostaria de não resumir de maneira tão simplista o tal discurso dela e analisar alguns pontos:

Muito obrigada, muito obrigada. Sentem-se, por favor. Obrigada. Amo vocês. Vocês vão ter que me desculpar. Perdi a voz gritando e me lamentando no fim de semana. E perdi a cabeça em algum momento neste ano. Então terei que ler.

Obrigada à Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood. Para seguir linha do que disse Hugh Laurie, nós, todos os presentes, pertencemos a um segmento vilipendiado da população.

Como assim estão sendo vilipendiados? Insatisfação política é humilhação e desprezo? O verdadeiro discurso seria: “Todos nós, atores, atrizes e diretores que arrecadamos bilhões graças aos consumidores estamos sendo humilhados por não nos levarem em conta no momento de votar”.

Pensem nisso: Hollywood. Estrangeiros. E a imprensa. Mas quem somos nós? O que é Hollywood? É um grupo de gente que vem de todas as partes. Eu nasci, cresci e me eduquei nas escolas públicas de Nova Jersey. Viola [Davis] nasceu numa cabana da Carolina do Sul e cresceu em Central Falls, Long Island. Sarah Paulson nasceu na Flórida e foi criada por sua mãe solteira no Brooklyn. Sarah Jessica Parker era uma de sete ou oito filhos em Ohio. Amy Adams nasceu na Itália, e Natalie Portman, em Jerusalém. Onde estão suas certidões de nascimento? E a linda Ruth Negga nasceu na Etiópia, cresceu em Londres. Não, na Irlanda, me parece. Está aqui indicada por fazer o papel de uma garota de um povoado da Virgínia. Ryan Gosling, como todas as pessoas mais amáveis, é canadense. E Dev Patel nasceu no Quênia, cresceu em Londres e está aqui por fazer o papel de um indiano que vive na Tasmânia…

O ponto importante é o inicio Hollywood, “Estrangeiros” e Imprensa, ela cita estes três seguimentos como grandes alvos do desprezo americano contemporâneo. Hollywood, como já citei diversas vezes neste blog, é um reduto 99% democrata, 99% de esquerda e que em 99% das ocasiões se prontifica de fazer campanha para os seus escolhidos, logo se Meryl Streep considera rejeitada pelos americanos não seguirem de maneira obsessiva os ideais de Hollywood está no seu direito.

“Estrangeiros”, usa esse perfil justamente por conta da promessa de Donald Trump de deportação de ilegais, curioso que nunca se usa o legal ou ilegal e apenas “estrangeiro” colocando todos no mesmo balde sem qualquer discernimento. Neste caso é muito simples, se a Amy Adams, Natalie Portman, Ruth Negga, Ryan Gosling e Dev Patel estão ilegais nos Estados Unidos(o que obviamente não estão) terão de deixar o país, agora se assim como milhões de tranalhadores imigrantes eles estão de acordo com as leis norte-americanas e legalmente estabelecidos no país continuarão suas vidas por lá normalmente, nada muito complicado de se entender, principalmente quando se foge da narrativa democrata.

Por último ela cita a imprensa… Imprensa esta que também já foi citada diversas vezes neste espaço e que, assim como Hollywood, trabalhou de maneira ativa como panfleto eleitoral de Hillary Clinton. Nesta eleição de maneira nunca vista o resultado já era uma certeza antes do pleito, ou pelo menos queriam passar a impressão que era uma certeza. Uma campanha de difamação maior que tudo o que os republicanos já estão acostumados a passar em época de eleições. E os americanos entenderam isto e remaram contra à maré que favorecia imensamente Hillary, passando pelo establishment, imprensa, formadores de opinião, artistas e Hollywood. Nada mais justo que a imprensa ser desprezada, não foi ela que errou todas suas previsões em 2016? Não foi esta grande imprensa que fez papel de militante durante todo o ano e ignorou as pessoas em prol de sua ideologia? Nada melhor que se tenha desconfiança daqueles que usam de maneira falsa uma imagem de imparcial para fazer campanha.

De modo que Hollywood está cheia de estrangeiros e forasteiros, e se querem expulsar todos nós vão ficar sem nada para ver além de futebol americano e artes marciais mistas, que NÃO são artes…

Artes marciais mistas não serem arte na opinião dela pouco importa, o fato é: Imagina um republicano falando isso, o quanto do famoso mi mi mi seria espalhado nas redes sociais de uma “artemacialfobia”. Enfim, só uma nota, seguindo…

Me deram três segundos para dizer isto… O único trabalho de um ator é entrar na vida de pessoas que são diferentes de nós e deixar você sentir como é isso. E houve neste ano muitas atuações poderosas que conseguiram justamente isso. Um trabalho assombroso e feito com compaixão.

Mas houve uma atuação neste ano que me impactou, que mexeu com o meu coração. Não por ter sido boa, não tinha nada de boa, mas era eficaz e funcionou. Fez a plateia a que se destinava rir e mostrar os dentes. Foi aquele momento em que a pessoa que pedia para se sentar na cadeira mais respeitável do nosso país imitou um repórter deficiente. Alguém a quem ele superava em termos de privilégio, poder e capacidade de se defender. Isso me partiu o coração. Ainda não consigo tirar aquilo da cabeça, porque não era um filme. Era a vida real.

Momento alto do discurso onde ela finalmente toca no ponto em que Donald Trump foi acusado durante as eleições. Ponto em que ela “lacrou” como diz o bizarro dicionário moderno das redes sociais. Muitas pessoas caíram neste conto de que o candidato republicano havia debochado de um deficiente, isso foi reproduzido aos quatro cantos em massa para tentar atingir a imagem de Trump. Essa mentira foi desmascarada neste ótimo vídeo do Felipe Moura Brasil onde ele mostra detalhadamente todo o contexto e a verdade por trás da simples manchete ignorante e “ganha-click” que é “Trump zomba de deficiente”, confira o vídeo:

E esse instinto de humilhar, quando modelado por alguém na plataforma pública, por alguém poderoso, se filtra na vida de todo mundo, porque de certa forma dá permissão para que outras pessoas façam o mesmo. Desrespeito atrai desrespeito. A violência incita a mais violência. Quando os poderosos usam sua posição para abusar de outros, todos perdemos…

Mentiras já refutadas no vídeo de maneira implacável… Seguindo:

Isto me leva à imprensa. Precisamos que a imprensa com princípios exija responsabilidade do poder, que o chame às falas por cada atrocidade que cometer. Por isso, os fundadores do nosso país protegeram a imprensa e suas liberdades na Constituição. Assim, só quero pedir à rica Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood e a todos que pertencemos a esta comunidade que se unam a mim no apoio ao comitê para a proteção dos jornalistas. Porque vamos precisar deles daqui por diante. E eles vão precisar de nos para salvaguardar a verdade.

Ehehehehe… Mais uma bela atuação de Meryl Streep. Quem foi eleito para a presidência dos Estados Unidos? Hitler, Mussolini, Pol-Pot, Fidel, Mao ou Stalin? Pois com este discurso parece que a coisa vai ficar feia para a imprensa… Grande piada! Obviamente que a imprensa deveria exigir responsabilidade dos poderosos, isso é algo primário. Porém voltamos ao inicio de seu discurso, a imprensa não tem credibilidade, ela vem perdendo após oito anos de puxação de saco do Obama e chegando ao ápice de sua atuação vexatória em 2016, ao se entregar de corpo e alma para fazer campanha. Obvio que Trump ou qualquer outro político norte-americano deve ser fiscalizado de perto, mas a Meryl Streep só lembrou disso agora? Interessante.

Só mais uma coisa. Certa vez, eu estava parada num set de filmagem me queixando de alguma coisa, horas extras, algo assim. Tommy Lee Jones me disse: “Não é um privilégio, Meryl, simplesmente ser ator?”. Sim, é mesmo. E precisamos recordar uns aos outros sobre o privilégio e a responsabilidade do ato da empatia. Devemos estar orgulhosos do trabalho que Hollywood homenageia nesta noite.

Como minha querida amiga, a recém-falecida Princesa Leia, me disse certa vez: “Pegue seu coração partido e o transforme em arte”. Obrigada.

Fim das lamentações políticas de Meryl Streep vale uma reflexão. Hollywood é um bastião da sociedade? Saindo dos Estados Unidos e olhando para nossa realidade, os atores e atrizes e suas opiniões políticas realmente tem algum peso maior do que a opinião do atendente da lanchonete, do gerente do banco, da arquiteta, do faxineiro ou da empresária?

Finalizo o post com dois vídeo, o primeiro de atores famosos que pediram voto para Hillary e o segundo com uma paródia genial feita pelo marketing de Trump, confira:

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